De qualquer maneira, ontem eu estava voltando da minha ida frustrada a locadora (estava procurando o filme de história do trabalho de amanhã) quando dou de cara com a Doida. A velhinha vestia uma camiseta verde limão sob a pele enrugada, sobreposto, um colete florido com alguns furos na lateral, nos pés um belo exemplar de tênis brancos e nas mãos um guarda chuva preto pairando a cima da cabeça grisalha.
Olhei para o guarda chuva e depois para o céu. Nublado, mas sem chuva. Como quem não quer nada, apressei o passo e cheguei mais perto da Doida para melhor observá-la.
- Moça - disse com a voz bem baixa para não assustá-la - não está chovendo - imaginando que, devido à cor acinzentada do céu, a senhora pensasse que de fato estivesse chovendo. Subestimei sua loucura.
- Eu sei - ela respondeu parando de andar bem em frente ao prédio em que, eu imagino, ela mora.- mas acho que vai chover daqui a pouco. - ela deu um sorriso onde um dente estava faltando.
O melhor a fazer seria deixar a velha pra lá e seguir meu caminho para casa, mas fiquei com vontade de perguntar, afinal, observo essa senhora já faz alguns anos, e ela é bem conhecida aqui no bairro, mas nunca tinha parado pra ouvi-la falar.
- Oras, então porque não guarda seu guarda chuva na bolsa? Se começar a chover, você pode abrir ele.
- Ué, se eu abrir só depois que começar a chover, eu vou me molhar - eu ri e concordei com a cabeça, ela até que tinha razão.
- É verdade, faz sentido.
Então ela virou pra mim e disse:
- Quando você tiver a minha idade, vai ter aprendido que a vida passa muito rápido para que se perca tempo abrindo um guarda chuva.
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